A alimentação saudável faz com que as pessoas busquem alternativas mais funcionais e sustentáveis. Sendo assim, as Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs) apresentam-se como uma excelente fonte nutricional e funcional para a alimentação humana. Quando pensamos em sustentabilidade, logo nos vêm à mente grandes ações. No entanto, podemos começar a contribuir com pequenas atitudes dentro da nossa própria casa, principalmente por meio da alimentação. Uma alimentação saudável é uma forma adequada de se alimentar, garantindo variedade, equilíbrio e quantidade suficiente de alimentos. Geralmente, consumimos alimentos sem saber sua origem, de onde vieram ou como foram produzidos. Estudos apontam que o processo de produção dos alimentos, desde o plantio até a distribuição, pode causar impactos no meio ambiente. Nesse sentido, as plantas alimentícias não convencionais são uma excelente opção para uma alimentação mais sustentável, pois apresentam baixo custo de produção e distribuição, adaptam-se a diferentes tipos de solo e são ricas em nutrientes e fibras.

Nesse sentido, as PANCs podem ser oferecidas como alimentos diferenciados e nutritivos, contribuindo para a segurança alimentar, nutricional e sustentável. As PANCs são plantas que possuem uma ou mais partes ou produtos que podem ser utilizados na alimentação humana, como raízes, tubérculos, bulbos, rizomas, cormos, talos, folhas, brotos, flores, frutos, sementes, além de látex, resina e goma, ou ainda serem utilizadas para obtenção de óleos e gorduras comestíveis. Essas plantas adaptam-se a diferentes ambientes, nascem espontaneamente ou podem ser cultivadas, contribuindo para o resgate dos processos vivos, denominados bioprocessos, e para a biodiversidade dos cultivos por se desenvolverem em ambientes diversificados. São espécies de fácil cultivo e podem ser encontradas em terrenos baldios, jardins, quintais, parques etc. Por isso, são conhecidas popularmente como inço ou mato. Apesar de serem pouco conhecidas na culinária pela população em geral, recentemente as PANCs vêm ganhando destaque como uma alternativa para resgatar a biodiversidade na alimentação humana.

O termo PANC foi criado no Brasil pelo professor e biólogo Valdely Ferreira Kinupp, em 2008, para definir todas as plantas que possuem uma ou mais partes comestíveis, sejam elas espontâneas ou cultivadas, nativas ou exóticas, que não fazem parte do cardápio cotidiano. Cabe salientar que, antes da definição do termo PANC, essas plantas eram chamadas apenas de plantas alimentícias, plantas daninhas, silvestres, inços ou mato, devido ao pouco conhecimento e ao desuso por grande parte da população. No entanto, tratam-se de espécies de grande importância ecológica, nutricional e econômica, com potenciais ainda pouco explorados.

Em estudos internacionais, essas espécies são denominadas, mais comumente, como Espécies Negligenciadas e Subutilizadas (NUS – Neglected and Underutilized Species), Ervas Daninhas Comestíveis (Edible Weeds) e Plantas Selvagens Comestíveis (EWP – Edible Wild Plants), sendo este último o termo mais utilizado nos estudos científicos.

Além dos benefícios nutricionais e dietéticos, as PANCs podem ser utilizadas para prevenir doenças crônicas e combater a desnutrição. Destaca-se também que o consumo dessas plantas é um fenômeno mundial, pois desempenha um papel importante na nutrição humana, na biodiversidade alimentar e no combate à insegurança alimentar.

O potencial nutracêutico e medicinal de diversas espécies de PANCs é conhecido há muito tempo, sendo essas plantas utilizadas para fins alimentares desde tempos antigos pelas sociedades humanas. Existe uma forte relação entre alimentos e medicamentos, de modo que, em muitos casos, seu uso como alimento não pode ser separado de sua ação terapêutica.

Por outro lado, o uso de plantas selvagens como fonte de identidade cultural é importante para compreender o meio ambiente, a sobrevivência, a diversidade alimentar, a economia local, a vida sustentável e a cultura de diferentes povos, além de ajudar a entender como comunidades indígenas e rurais isoladas vivem até os dias atuais. Destaca-se, ainda, que as PANCs contribuíram para a variedade da dieta tradicional durante milhares de anos, fornecendo vitaminas e nutrientes essenciais para a sobrevivência de diversas civilizações.

As ervas daninhas também podem ser úteis para os seres humanos como alimento, no controle da erosão, na produção de medicamentos, na agricultura, na saúde, na nutrição, na sustentabilidade ambiental e na prosperidade das populações.

A agrobiodiversidade é outro aspecto destacado pelos pesquisadores. Embora as PANCs não possuam uma classificação oficial, muitas dessas espécies são resistentes à seca, à umidade e à erosão. Por isso, são importantes para cultivos sustentáveis e para a manutenção de diversos ecossistemas. Não é por acaso que essas plantas são consideradas ervas “daninhas” ou “inços”, pois conseguem brotar e se adaptar a diferentes condições climáticas.

No entanto, ainda se sabe pouco sobre sua diversidade e sobre as práticas de manejo agrícola dessas espécies. Por isso, é necessário investir em pesquisas que desenvolvam estratégias capazes de aumentar a produção de alimentos, conservar a biodiversidade e ampliar o acesso da população a alimentos mais nutritivos. Além disso, faz-se necessário o desenvolvimento de políticas agrícolas multifuncionais que garantam a produção de alimentos juntamente com a preservação de paisagens sustentáveis, da biodiversidade e da herança cultural das áreas rurais, contexto no qual as PANCs podem desempenhar um papel importante.

Apesar de sua importância para a segurança alimentar e nutricional, para a agrobiodiversidade e para a geração de renda, ainda se conhece pouco, na comunidade científica, sobre as melhores formas de cultivo e de disseminação do potencial das PANCs. Em muitas localidades, essas plantas desempenham um papel fundamental na obtenção de alimentos, na geração de renda e no suprimento das necessidades energéticas (calóricas) da população, embora seu uso ainda tenha pouca abrangência em escala mais ampla.

As escolhas alimentares exercem um papel importante tanto na saúde humana quanto no meio ambiente. O aumento do consumo de produtos altamente processados e com baixo valor nutricional tem contribuído para o surgimento de doenças crônicas e degenerativas, como hipertensão, diabetes, câncer e obesidade. Além disso, a redução do contato com a natureza, principalmente entre as crianças, tem provocado um distanciamento cada vez maior do meio natural, conhecido como transtorno do déficit de natureza, que pode se manifestar por meio de problemas comportamentais e de saúde.

Mas… como assim “não convencional”?

Para que uma planta seja considerada uma PANC, é necessário analisar o contexto em que ela está inserida. Em algumas regiões, essas plantas fazem parte da alimentação diária e são consideradas tradicionais. O Brasil possui um grande potencial para explorar as PANCs, sejam elas nativas ou provenientes de outros lugares.

O termo “não convencional” foi atribuído a essas plantas porque elas não são tão comuns no cotidiano da maioria das pessoas e não fazem parte de uma cadeia produtiva já estabelecida, ou seja, não são facilmente encontradas em mercados, por exemplo.

Como consumir as PANCs?

As PANCs podem ser incorporadas ao cardápio do dia a dia de diversas maneiras. Não é necessário ser um chef de cozinha para utilizá-las, pois muitas receitas podem ser adaptadas, substituindo ingredientes convencionais por PANCs. Cada planta possui características próprias e uma forma específica de consumo.

Como saber se minha planta é uma PANC ou não?

É importante identificar corretamente as PANCs, pois algumas plantas possuem partes comestíveis que não são conhecidas ou consumidas pela maioria das pessoas. Por isso, é fundamental ter certeza do que está sendo consumido, evitando confusões que possam causar problemas de saúde. Uma boa prática é sempre verificar se o nome científico corresponde à planta.

Onde encontrar as PANCs?

Calçadas e ruas podem ser ambientes poluídos e contaminados. Por isso, é recomendável adquirir as PANCs em locais de procedência confiável. Feiras orgânicas e agroecológicas são ótimas opções para encontrar PANCs destinadas ao consumo, além de sementes e mudas.

Quais benefícios as PANCs trazem para a saúde?

O consumo de PANCs oferece diversos benefícios à saúde, contribuindo para uma alimentação mais variada e para o fortalecimento da segurança alimentar e nutricional. Essas plantas apresentam um elevado valor nutritivo, sendo ricas em compostos bioativos, fibras alimentares, aminoácidos essenciais, vitaminas, proteínas, carboidratos, antioxidantes e ômega 3.

Saiba como identificar as PANCs corretamente

Ora-pro-nóbis (Pereskia aculeata)

A ora-pro-nóbis é uma das PANCs mais conhecidas e destaca-se pelo seu alto valor nutricional. Suas folhas são ricas em proteínas, fibras, vitaminas A, B e C, além de minerais como cálcio, ferro e fósforo. Elas podem ser consumidas em saladas, refogados, sopas e até mesmo em sucos, sendo uma excelente opção para enriquecer a alimentação de forma saudável e nutritiva.

Taioba (Xanthosoma sagittifolium)

A taioba é outra PANC bastante nutritiva e uma excelente fonte de vitamina A, ferro, cálcio e fósforo. Suas folhas podem ser consumidas refogadas, em saladas ou em sopas, contribuindo para uma alimentação mais saudável e rica em nutrientes essenciais.

Caruru (Amaranthus viridis)

Rico em ferro, cálcio, fósforo e vitaminas A e C, o caruru é uma excelente opção para incluir na alimentação. Pode ser consumido em refogados, saladas e sopas, oferecendo um bom aporte nutricional e acrescentando sabor às refeições.

Capuchinha (Tropaeolum majus)

As flores e as folhas da capuchinha são ricas em vitamina C, ferro e enxofre. Podem ser consumidas cruas em saladas, acrescentando cor, sabor e nutrientes importantes para a alimentação.

Jambu (Acmella oleracea)

Conhecido pelo efeito de “choque” que provoca na boca, o jambu é uma PANC rica em vitamina C e cálcio. Suas folhas podem ser utilizadas em saladas e refogados, proporcionando um sabor marcante e característico às refeições.

Peixinho (Stachys byzantina)

O peixinho é rico em vitamina C, ferro e cálcio. Suas folhas macias podem ser consumidas cruas em saladas, oferecendo um sabor suave e um bom valor nutricional.

Beldroega (Portulaca oleracea)

A beldroega possui alto teor de ômega-3, vitaminas A, C e E, além de minerais como ferro, cálcio e potássio. Pode ser utilizada em saladas e refogados, enriquecendo a alimentação com importantes nutrientes.

Orelha-de-padre (Opuntia cochenillifera)

Os frutos da orelha-de-padre são ricos em vitamina C, cálcio, fósforo e ferro. Podem ser consumidos in natura ou em sucos, sendo uma opção nutritiva e saborosa para a alimentação.